Crônicas

Crônicas: Amanda


Sabe aquele tipo de pessoa que simplesmente conquista TUDO o que quer ? Pois bem, esta é Amanda.

Independente, desprovida de receios ou timidez, quando ela coloca alguma coisa na cabeça ela não tira enquanto não consegue alcançar este capricho. Em sua vida profissional, Amanda é ousada, não tem receio em falar o que pensa, enfrenta os problemas e até tira onda com as situações vive.  É quase que uma relação visceral, como tudo que faz na verdade. Já na sua vida pessoal, faz o tipo desapegada, diz não ter tempo para se apegar – o que não significa não pegar.

Faz questão de ser a mais linda, não para fazer inveja nas meras mortais que existem por aí, mas porque ela se idolatra. Para ela, não existe mulher mais incrível do que Amanda: bonita, inteligente, bem resolvida e auto-suficiente. Mas não se trata apenas de mais uma nojentinha, Amanda também tem o hábito de ser amável, compreensiva, simpática e carinhosa com a todos a sua volta, da senhora do cafezinho até o presidente da república! Como não amar esta mulher?  Pois é, todos amavam.

Amanda, diga-se de passagem, nunca amara ninguém que não fossem seus gatos, sua mãe e suas amigas de infância, acho que por escolha. Era mais fácil ser forte e ouvir os lamentos de suas amigas, do que devorar quilos de chocolate por pura depressão por não ter recebido a ligação do dia seguinte (aliás, ela nunca dá o número certo!).  Certa vez, depois de um porre homérico, ela até se sentiu balançada pelo carinha que a levou até o táxi. “Tão fofinho…”, disse a bêbada Amanda ao rapaz, mas depois se deu conta de que ele nada mais era do que o vallet da balada.

Mas um dia as coisas começaram a mudar.

Amanda costuma tomar seu café da manhã de Sábado em uma famosa padaria em sua cidade. Há pelo menos 5 anos, ela cultivava sua tradição que já lhe rendera boas histórias, piadas e experiências impagáveis consigo. É o momento da semana onde ela tem o prazer de estar somente com ela, seu café preto e coado, uma porção de pães de queijo daqueles pequenininhos, várias geleias e um livro – neste dia específico “Um dia” de David Nicholls.

Desatenta ao mundo, apenas rindo das neuras de Emma, protagonista da história que lia, não se deu conta de que o lugar estava ficando cada vez mais cheio e que as pessoas olhavam com muita raiva para sua mesa. Amanda só despertou de seu infinito particular quando foi cutucada por um rapaz que pedia licença para dividir sua enorme mesa, egoisticamente sendo utilizada apenas por uma pessoa. Sem ter para onde ir, permitiu que aquele estranho invadisse aquele momento particular e não compartilhável.

– “Sabe, Emma é a versão feminina daquilo que sempre quis ser… “, disse aquele homem para Amanda.

– “Insegura, mau humorada e sem ter a menor noção do que quer da vida?”, atirou nele.

– “Não, determinada, corajosa da sua maneira, claro, e que se permite quebrar a cara. Ok que ela não é o exemplo mais perfeito de determinação ou de auto permissão, mas sempre se mantém de pé. Forte. Acho que é isso, queria ser tão forte quanto Emma”, respondeu.

Em seus pensamentos, Amanda não sabia se jogava seu delicioso café naquele cara abusado que ousava se infiltrar em um momento que não lhe pertencia, ou se se envolvia nos comentários que aquele estranho fazia. “Gente, ele leu meu livro favorito!”, gritava em seu interior.

Após alguns minutos de resistência, Amanda resolveu abrir uma fresta da sua intimidade sabatista.  Após algumas horas e pelo menos um litro de café, ainda estava ali, mas agora com a porta aberta para aquele homem que, de alguma forma, já fazia parte da sua vida.

Ele era encantador e tinha a personalidade mais naturalmente sedutora com a qual já tivera contato. Segundo Ele, ele era movido por suas pequenas paixões, como o calorzinho do sol entrando pela janela do quarto pela manhã, pelo cheirinho do pão saindo do forno e por sua coleção de cartas (sim, ele escreve e envia cartas). Ele contou inúmeras coisas para Amanda, sobre sua família no interior, sobre seu casal labradores, sobre sua paixão por gastronomia e por doces com chocolate, sobre a reforma do seu apartamento e, a única coisa que a fez pensar foi o fato daquele homem tão incrível quanto ela estar solteiro e, segundo palavras dele, disposto a encontrar a metade da sua laranja. Sem saber o que fazer, e um pouco agitada devido ao excesso de café, Amanda se vê sem saída e, como em um ato de bravura e coragem, escreve o número de seu telefone celular em um guardanapo e entrega para Ele.

E pela primeira vez em sua vida, aquela mulher incrível fica a mercê do vibrar de seu celular.

E Ele ligou. E ela retornou. E eles se falaram praticamente todos os dias da semana. Na primeira ligação, Ele disse que Amanda deveria comer o brigadeiro que ele provou naquela semana pois tratava-se do doce mais fantástico do universo e duvidava da capacidade dela em fazer um melhor (Rá, ponto para Amanda! Ela era conhecida entre suas amigas por ter mãos de fadas, quando o assunto era brigadeiro. Afinal, enquanto suas amigas choravam por todos aqueles boys-magia, ela se refugiava em chocolates e panelas.), na ligação seguinte, ela disse ter ouvido a banda que ele indicou e que ficou fascinada com os agudos do vocalista gatinho. Por fim, após dias de muito mimimi, Ele a convida para dar uma volta no parque com seus labradores. Ela aceita.

Ela aceita e se desespera: nunca havia sido convidada para um encontro tão casual, informal e… familiar! Seria ela, Ele e seus futuros filhos! Muita pressão para uma amadora na arte dos encontros casuais. Depois vieram alguns jantares, trocas de likes, mensagens carinhosas por Whatsapp e, quando de seu conta já estava fazendo planos para o café da manhã de sábado com Ele.

Amanda já não pensava em mais nada que não tivesse relação com Ele: comia o que Ele dizia que era bom, ouvia as músicas que Ele compartilhava e já duvidava da sua capacidade de fazer o melhor brigadeiro das galáxias – que por sinal ela sequer fez para Ele provar. Ficou com medo de não agradar. Sim, Amanda estava com medo. Aquela mulher auto-suficiente estava com medo e não agradar a UM homem.

Foram meses de troca de afeto, mensagens e saliva até que Amanda resolveu voltar a ser a mulher decidida que sempre foi e, em um despretensioso jantar em sua casa – obviamente planejado como o maior evento de sua vida –  ela faz o pedido:

– “ Quer namorar comigo?”

Faz seis meses que Ele desapareceu da vida de Amanda, como um passe de mágica.

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